Em tempo de crise de imigração e xenofobia, um evento que valoriza as mais variadas culturas e os direitos humanos não poderia eleger outro tema que não o território, o lugar ocupado geograficamente pelas periferias da cidade. Ao adotar esse conceito temático, o Encontro Estéticas das Periferias optou por enfatizar a noção afetiva presente em tal definição. É isso que explica um dos idealizadores do evento, Eleilson Leite, da Ação Educativa, ao afirmar que essa escolha teve como objetivo evidenciar que expressões artísticas estão para além de limites administrativos-políticos.

Realizado durante os dias 23 e 28 de agosto, a 6a edição do Estéticas das Periferias dividiu São Paulo em 16 territórios. Pensado, organizado e realizado por coletivos, atores e diversos grupos culturais das bordas da metrópole, o encontro abriu espaço para as mais diversas e múltiplas linguagens.

Jamir Nogueira, um dos coordenadores do “Território Jaçanã-Tremembé”, avaliou como “bastante acertada” a decisão de valorizar ainda mais as experiências locais e suas potencialidades para além da manifestação artística. “Esse ano o encontro foi co-organizando dentro dos territórios, isso parte da lógica de dar mais voz e poder de decisão para os atores locais”, explica. “É importante observar que o Estéticas sempre possuiu essa ideia de rede, de incentivar a troca e o diálogo entre as diferentes quebradas da cidade, o que mudou foi sobretudo como se deu a organização no território, que permitiu a valorização do conjunto de atrações”.

Prova da valorização da diversidade e do desejo de garantir a efetiva participação desses atores, a região do Jaçanã recebe quase 15 atrações, de exibição de um documentário sobre futebol, passando por show de rap, festival de rock e roda de samba, chegando aos cortejos de Maracatu.

Compartilhando da importância de valorizar o artista local, Wagner Ufracker, o popular Zé da Lua, coordenador da região “São Miguel-Ermelino” aponta que um dos principais benefícios do compartilhamento da organização por território, é chamar a responsabilidade e empoderar o artista.

“Dar autonomia para os coletivos produzirem em seus territórios, cria laços nas quebradas a partir de outras perspectivas, com foco no fortalecimento das regiões envolvidas nos Encontros”.

Por fim, Eleilson acredita que a opção por discutir a ideia de território reforça tanto a preocupação do Estéticas de seguir constantemente se renovando, como também possibilita que o evento se transforme em uma rede com ações permanentes.

“Atuar no nível local nos dá a oportunidade de criar soluções para problemas globais, promovendo ações de desenvolvimento local na chave do direito à cidade. A delimitação de um território leva em conta fatores como identidades coletivas estabelecidas por laços de pertencimento, circuitos e determinados tipos de trajeto. A cartografia do território é assim uma construção de grande apelo simbólico e a cultura é a narrativa que trama o tecido social daquele espaço. Ou seja, para nós, território é um espaço afetivo”, conclui.